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06/03 "A carreira técnica, desde que demandada pelo mercado, pode ser uma opção de sucesso"

Um dos maiores dilemas que cerca aqueles jovens que buscam alcançar um lugar no mercado de trabalho tem sido a escolha do perfil de carreira a seguir. O chamado da Universidade é o que sempre acaba falando mais alto, e o encantamento com a perspectiva de uma carreira de nível superior acaba prevalecendo, motivo pelo qual muitos acabam desprezando uma carreira técnica imediata, às vezes vista como “inferior” para enveredar pelo caminho da Universidade.

Até recentemente, a única opção de sucesso que se colocava vinha sendo trilhar o caminho da  Universidade, a única via disponível  para chegar ao mercado de trabalho em melhores condições de evoluir em uma carreira. Ao contrário de outros países, no Brasil o diploma universitário tem sido considerado a única garantia de emprego e sucesso.

Mas voltemos um pouco nosso olhar para um outro país e vamos tentar perceber como as coisas podem se suceder em outro contexto. Este país é a Espanha, onde uma multidão de jovens sofrem com o desemprego crônico, que ameaça tragar toda uma geração. E, no entanto, a Espanha possui um grau de formação universitária entre os jovens muito mais elevado do que o Brasil. Lá, aparentemente, uma formação universitária não representa mais qualquer garantia de emprego. 

Em um programa de televisão que versava sobre os objetivos dos estudantes espanhóis, uma revelação aparentemente curiosa chamou um pouco mais a atenção para o assunto. Casualmente, um profissional formado em Geografia revelava ao repórter que, apesar de graduado em Geografia, continuava trabalhando em sua charcutaria. Ao repórter, enquanto digeria a informação, lhe era revelado que este profissional nunca havia pensado em abandonar a charcutaria, uma habilidade herdada de seus ancestrais, e que aprendera em família. O objetivo da universidade, para ele, era apenas o de abrir um pouco mais seus horizontes de conhecimento. Puro deleite. O trabalho mesmo era realizado sobre os presuntos crus e seu bar especializado nestas iguarias. Eis aqui um caso onde seguir a carreira prática mostrava-se muito mais vantajosa para aquele profissional do que a suposta perspectiva do ensino universitário.

O que se poderia concluir de tal entrevista, no mínimo, é que determinadas habilidades técnicas, quando devidamente aplicadas a um negócio, podem render muito mais financeiramente, em todos os sentidos, do que uma profissão, ou conhecimento, aprendido em uma universidade. Poderíamos aqui dizer que a carreira técnica, desde que amplamente dominada e demandada pelo mercado pode ser sim uma opção de sucesso profissional.

Escassez de profissionais

Aqui no Brasil, e não é preciso ir muito longe para atestarmos esta situação, já nos deparamos com  uma falta crônica de profissionais de nível técnico, seja de operadores de instrumentos industriais, soldadores especializados, marceneiros especializados ou mesmo especialistas em assuntos da gastronomia – somente este já representando um campo quase infinito. Determinadas profissões estão ao alcance imediato dos mais jovens, sem que isto implique necessariamente em uma limitação profissional. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para os mais jovens chegarem ao mercado de trabalho mais cedo e melhorar sua condição de vida de forma mais rápida, sem que esta opção represente um prejuízo na sua formação de longo prazo.

O Governo finalmente acordou para isto e lançou uma versão expandida do Pronatec, que agora permite a abertura de muito mais vagas. Este programa visa oferecer cursos gratuitos, técnicos, para estudantes de nível médio, que poderiam rapidamente ingressar em uma carreira e, com isto, gerar renda e dar um salto social. Evidentemente, esta opção pode retardar o ingresso em uma Universidade. Contudo, são fatores a serem pesados. Se o jovem ingressar no ensino técnico, poderá usufruir de renda e experiência com menos de 20 anos, melhorando de imediato o seu padrão de vida. Uma vez conquistada uma colocação no mercado de trabalho, a Universidade pode voltar a ser uma opção de vida um pouco mais à frente.

Não por acaso, e sem nenhum absurdo nisto, podemos encontrar profissionais na faixa dos 50 anos voltando para os bancos da Universidade em busca de uma primeira, ou segunda graduação ou mesmo um aperfeiçoamento por meio do mestrado. Com a expansão das fronteiras da longevidade, não se estranha mais que alguém curse a faculdade em algum momento além da fronteira dos 20, 30, 40+ anos. Desta forma, considerando que a formação é um longo e contínuo caminho, para a vida toda, abrem-se novas opções de formação.

"Apagão de mão de obra"
Se voltarmos os olhos para os profissionais de nível técnico que cuidam hoje da segurança elétrica no país, podemos nos deparar com um quadro aterrador. Como poucos ingressam nestas carreiras, observa-se um anacronismo nas técnicas empregadas. Como hoje parece que todos almejam um cargo no “backoffice”, ou seja, trabalhando atrás de uma mesa, quando poucos de fato veem com bons olhos a perspectiva de ir a campo lidar com estruturas de alta tensão, o sistema tende ao apagão. Este é apenas um dos exemplos que podem representar, no futuro, em apagão de mão de obra. Se você for esta mão de obra, estará bem situado. Enfim, por meio destes poucos exemplos, devemos novamente nos perguntar se existe um único caminho, ou vários, e que rota seguir.

A decisão sobre a melhor decisão a tomar depende do perfil e nível de conhecimento de cada um, mas vale a pena dar uma chance ao currículo estritamente técnico, tendo em vista que provavelmente você fará vários cursos de especialização, uma ou duas faculdades e talvez pós-graduação nas várias fases de sua vida. Não morremos mais aos 40 como antigamente e esta diferença mostrada pela demografia deveria influenciar as perspectivas dos jovens. Não vivemos para sempre, mas talvez haja tempo para tudo e ainda um pouco mais.

Fonte: http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/coluna-valorh-ser-ou-nao-ser-tecnico/?cHash=d7facf4cd29bfcd1443342dc690bd5da -  06/03/2014